Da revenda à marca própria: O salto mais difícil da moda

Sophie Hartmere
Sophie Hartmere
Fredy da Silva Gonçalves Bento

O início da trajetória de Fredy da Silva Gonçalves Bento, o empresário Fredy Restrito, passa pelo varejo de moda: primeiro a venda de roupas no quarto de casa, no Parque Bitaru, em São Vicente, por volta do ano 2000, e depois a criação da Restrito, marca própria que marcou o começo de sua vida empresarial. O nome pelo qual ficou conhecido na Baixada Santista é o mesmo da marca.

Esse percurso, da revenda à etiqueta própria, é desejado por muitos pequenos comerciantes de roupas e concluído por poucos. A diferença entre os dois modelos vai muito além do logotipo costurado na peça. Envolve produção, capital, proteção legal e uma identidade que precisa ser reconhecida pelo cliente.

Revender é vender o nome de outro

Quem revende compra peças prontas de fornecedores ou atacadistas e lucra com a diferença entre o preço de compra e o de venda. O modelo exige pouco capital inicial e permite testar o mercado com rapidez, o que explica por que tantos negócios de moda começam assim.

O limite aparece com o tempo. A margem é definida em boa parte pelo fornecedor, e o mesmo produto pode estar à venda na loja vizinha. O cliente passa a comparar preço, não marca. Sem diferenciação, a revenda tende a virar disputa por desconto, justamente o terreno em que o pequeno comerciante tem menos força.

A marca começa no tecido e na costura

Ter marca própria significa assumir decisões que antes eram do fornecedor. Conforme frisa Fredy Restrito, é preciso definir modelagem, escolher tecidos e aviamentos, estabelecer a grade de tamanhos e contratar a produção, geralmente feita por oficinas de costura terceirizadas, conhecidas no setor como facções.

Cada etapa traz um risco novo. Fornecedores de tecido costumam exigir pedido mínimo, o que obriga o empreendedor a imobilizar capital antes de vender a primeira peça. Uma modelagem que veste mal gera troca e devolução. Um lote produzido em quantidade acima da demanda vira estoque parado. Por isso, a transição costuma ser gradual, com coleções pequenas convivendo por um período com a revenda.

Um nome precisa ser protegido

Criar uma marca e registrá-la são coisas diferentes. No Brasil, o direito de uso exclusivo de uma marca é garantido pelo registro no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, dentro da classe correspondente à atividade. Para vestuário, calçados e chapelaria, a classe é a 25 da classificação internacional adotada pelo órgão.

Sem registro, o empreendedor corre o risco de investir anos em um nome que outra empresa pode reivindicar. Antes de lançar a marca, vale fazer uma busca na base do INPI para verificar se já existe registro igual ou semelhante no mesmo segmento. É um passo simples, mas frequentemente ignorado em negócios que nascem pequenos.

Identidade que o cliente reconhece

Uma marca de roupa se sustenta quando o cliente identifica nela um estilo, uma atitude ou um pertencimento. Fredy da Silva Gonçalves Bento comenta que isso exige coerência entre as peças, a comunicação e o público que se pretende alcançar.

Marcas nascidas em bairros e cidades médias costumam ter uma vantagem nesse ponto: proximidade. O dono conhece o cliente, ouve diretamente o que agrada e o que não funciona, e ajusta a próxima coleção com uma rapidez que grandes redes não têm. Essa relação próxima, construída no balcão, é muitas vezes o que transforma uma etiqueta em referência local.

Quando a marca vira sobrenome

Poucos empresários passam a ser chamados pelo nome do próprio negócio. No caso de Fredy Restrito, a associação permaneceu mesmo depois de sua atuação se estender para gastronomia, eventos, investimentos e mobilidade elétrica.

Essa permanência diz algo sobre a força de uma marca bem construída: ela não registra apenas um produto, mas a reputação de quem está por trás dele. Para Fredy da Silva Gonçalves Bento, o primeiro capítulo empresarial deixou mais do que vendas. Deixou um nome que acompanhou cada negócio seguinte e que ajuda a contar, até hoje, de onde veio uma trajetória de mais de duas décadas.

 

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