Tremor de magnitude 7,4 teve origem no oeste da Colômbia e foi percebido a quase 2 mil quilômetros de distância; entenda como isso aconteceu.
Na manhã de segunda-feira (10), moradores de Manaus, no Amazonas, tiveram uma daquelas experiências que fazem qualquer pessoa parar e pensar: “Foi impressão minha ou o chão realmente mexeu?”. O tremor sentido em diferentes pontos da capital amazonense não começou no Brasil. Ele foi provocado por um forte terremoto registrado no oeste da Colômbia, com magnitude 7,4 e profundidade de aproximadamente 107 a 110 quilômetros. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o epicentro ficou próximo de San José del Palmar, no departamento de Chocó.
A distância ajuda a explicar por que o fenômeno chamou tanta atenção: Manaus fica a quase 2 mil quilômetros do epicentro. Mesmo assim, ondas sísmicas conseguiram atravessar grandes extensões do subsolo sul-americano e produzir efeitos perceptíveis na cidade. A pergunta que naturalmente aparece é se o Brasil também teve um terremoto e, principalmente, se existe alguma relação entre o tremor sentido no Amazonas e a estrutura geológica do país.
O terremoto não começou no Brasil: a origem estava na Colômbia
O ponto central para entender o episódio é separar onde o terremoto aconteceu de onde seus efeitos foram percebidos. O evento de 10 de agosto teve epicentro no oeste da Colômbia, próximo a San José del Palmar, e alcançou magnitude 7,4 segundo o USGS. A instituição estima que o foco tenha ficado a cerca de 110 quilômetros de profundidade, enquanto registros divulgados pela imprensa apontaram aproximadamente 107 quilômetros.
A profundidade é importante porque ajuda a entender como um terremoto ocorrido fora do território brasileiro conseguiu ser percebido tão longe. Quando uma grande quantidade de energia é liberada no interior da Terra, ela se propaga em forma de ondas sísmicas pelo material rochoso. Dependendo da magnitude, da profundidade e das características das rochas atravessadas, essas ondas podem percorrer distâncias enormes antes de perderem energia suficiente para deixar de ser perceptíveis. Foi esse tipo de propagação que levou os efeitos do terremoto colombiano até Manaus.
O próprio mecanismo do terremoto também ajuda a explicar sua origem. O USGS classificou o evento como relacionado principalmente a uma movimentação do tipo transcorrente, conhecida em inglês como strike-slip faulting. Nesse tipo de processo, blocos de rocha se movimentam lateralmente ao longo de uma falha, liberando de maneira repentina a energia acumulada no interior da crosta. Portanto, não é correto imaginar que o solo de Manaus tenha simplesmente “despertado” naquele momento para produzir um terremoto semelhante ao colombiano. O que chegou à capital amazonense foram as ondas geradas pelo grande evento sísmico ocorrido em outro país.
Essa diferença também explica por que o episódio foi percebido em outros pontos da região. Relatos indicaram que o terremoto colombiano foi sentido não apenas em cidades do próprio país, mas também em áreas do Equador e do Panamá. No Brasil, Manaus apareceu entre os locais onde os efeitos foram percebidos, apesar da enorme distância em relação ao epicentro.
Por que um terremoto tão distante conseguiu ser sentido em Manaus?
Aqui está a parte que parece mais estranha, mas faz bastante sentido quando se olha para a física do fenômeno. Um terremoto não funciona como uma pancada localizada que desaparece imediatamente ao redor do epicentro. Ele produz diferentes tipos de ondas sísmicas, que atravessam o interior e a superfície terrestre e podem alcançar regiões muito distantes. Em eventos fortes, como o de magnitude 7,4 ocorrido na Colômbia, a energia liberada é suficiente para que essas ondas sejam detectadas e, em determinadas condições, percebidas por pessoas a centenas ou milhares de quilômetros.
Em Manaus, a distância até o epicentro era de quase 2 mil quilômetros, mas isso não impediu a percepção do movimento. O Corpo de Bombeiros do Amazonas foi acionado para realizar vistorias preventivas em imóveis, principalmente nas regiões do Centro, Adrianópolis e Aleixo. O Palácio do Comércio, no Centro, chegou a ser esvaziado por segurança, enquanto outros edifícios também adotaram medidas preventivas. Não houve registro de feridos associado aos tremores em Manaus nas informações divulgadas naquele momento.
Isso não significa, porém, que Manaus tenha sido atingida por um terremoto de magnitude 7,4. A magnitude é uma medida do tamanho do evento na sua origem, e não uma nota que permanece igual em todos os lugares por onde as ondas passam. À medida que a energia se espalha, a intensidade percebida em cada local varia conforme a distância, a profundidade do evento, as características do terreno e as estruturas das construções. É justamente por isso que um terremoto gigantesco pode ser sentido de maneira relativamente leve em uma cidade distante, enquanto provoca danos graves perto do epicentro.
Também vale deixar de lado uma interpretação que costuma aparecer rapidamente nas redes sociais: a de que um terremoto distante necessariamente significa que outro grande terremoto está prestes a acontecer no Brasil. Não há base científica para transformar o tremor colombiano em uma previsão desse tipo. Inclusive, verificações recentes já desmentiram conteúdos que anunciavam supostos “mega terremotos” previstos para datas específicas no território brasileiro, lembrando que terremotos não podem ser previstos dessa maneira.
O Brasil pode ter terremotos ou sentir tremores de outros países?
Pode, e a história geológica brasileira mostra que o país não é completamente livre de atividade sísmica. O território nacional está localizado no interior da Placa Sul-Americana, distante das principais zonas de encontro entre placas que concentram terremotos muito destrutivos, como ocorre em partes dos Andes. Essa posição ajuda a explicar por que grandes terremotos são menos frequentes no Brasil, mas não significa que a terra brasileira seja totalmente imóvel. O Serviço Geológico do Brasil mantém informações sobre terremotos e explica que a crosta terrestre é formada por placas litosféricas que se movimentam continuamente.
Existem registros históricos de tremores significativos em território brasileiro. Um dos casos mais conhecidos ocorreu em 1955, na região da Serra do Tombador, em Mato Grosso, com magnitude estimada em 6,3 pelo USGS. Outro exemplo importante ocorreu em João Câmara, no Rio Grande do Norte, durante a década de 1980, quando uma sequência de tremores chegou a produzir danos e provocou forte preocupação entre os moradores. Esses episódios mostram que o Brasil pode registrar terremotos próprios, embora a frequência e o risco de grandes eventos sejam diferentes daqueles observados em regiões próximas aos limites de placas tectônicas.
Também existe outra possibilidade: o Brasil pode sentir as ondas de terremotos que acontecem em países vizinhos. A posição do país na América do Sul permite que grandes abalos ocorridos na região andina ou em outras áreas do continente sejam registrados por equipamentos brasileiros e, em algumas circunstâncias, percebidos pela população. O episódio de Manaus é um exemplo particularmente chamativo porque a distância até o epicentro era enorme, mas a energia liberada pelo terremoto colombiano foi suficiente para produzir movimentações perceptíveis na capital amazonense.
Para quem sentiu o chão, objetos ou estruturas balançarem, portanto, a explicação é menos misteriosa do que parece. O Brasil não “produziu” o terremoto de 10 de agosto: as ondas que chegaram ao Amazonas foram consequência de um forte evento sísmico ocorrido na Colômbia. E, embora o país tenha seus próprios tremores, não existe motivo para transformar esse episódio específico em sinal de um suposto grande terremoto brasileiro iminente.
O caso também serve como lembrete de que a atividade sísmica não respeita fronteiras desenhadas nos mapas. Um terremoto acontece em determinado ponto, mas sua energia pode viajar por uma área muito maior, fazendo com que pessoas em países diferentes percebam seus efeitos. Em Manaus, a reação das autoridades foi preventiva, com vistorias em edifícios e esvaziamento de algumas estruturas por segurança.
No fim das contas, a pergunta “por que sentimos um terremoto da Colômbia no Brasil?” tem uma resposta bastante direta: porque o terremoto foi forte o suficiente para gerar ondas sísmicas que percorreram grandes distâncias pelo continente. O episódio não significa que Manaus tenha sido o epicentro nem que um terremoto de magnitude 7,4 tenha ocorrido em solo brasileiro. É, sobretudo, um exemplo impressionante de como um fenômeno que começa a milhares de quilômetros pode ser percebido do outro lado de uma fronteira.
Fontes:
- U.S. Geological Survey (USGS) — registro oficial do terremoto de magnitude 7,4 na Colômbia
- U.S. Geological Survey — mapa de intensidade do terremoto
- Serviço Geológico do Brasil (SGB) — Terremotos
- Serviço Geológico do Brasil — causas dos terremotos
- Serviço Geológico do Brasil — Estrutura Interna da Terra
- CNN Brasil — moradores de Manaus relatam tremores após terremoto na Colômbia
- Agência Estado/UOL — terremoto na Colômbia é sentido em Manaus
- ANSA Brasil — terremoto de 7,4 na Colômbia é sentido em Manaus

