Joelho, mãos e pescoço: O que o ciclista ignora?

Sophie Hartmere
Sophie Hartmere
Rolando Bonaccorsi

Boa parte dos desconfortos que aparecem depois de meses pedalando não chega de uma vez, como uma lesão aguda de queda ou impacto. Chega aos poucos, quase imperceptível no início, até que um dia o ciclista percebe que sente a mesma dor, no mesmo lugar, toda vez que sobe na bicicleta.

Rolando Bonaccorsi, que soma à rotina de operações de tecnologia o hábito de pedalar, observa que essas três regiões, joelho, mãos e pescoço, concentram boa parte das queixas recorrentes entre ciclistas de estrada, cada uma delas nascendo de uma causa mecânica específica, quase sempre corrigível antes que o desconforto se torne crônico e passe a exigir tratamento mais longo.

O joelho: a lesão mais comum e mais fácil de prevenir

O joelho é a articulação mais sobrecarregada durante a pedalada e, por isso mesmo, a mais sensível a pequenos erros de ajuste que se repetem centenas de vezes a cada quilômetro percorrido. A localização exata da dor costuma indicar a causa: incômodo na parte frontal do joelho geralmente aponta para selim baixo demais, aumentando a pressão sobre a cartilagem atrás da patela a cada pedalada completa.

Dor na parte posterior, por outro lado, costuma surgir quando o selim está alto demais, forçando um alongamento excessivo dos isquiotibiais a cada extensão da perna. Já dores nas laterais frequentemente indicam desalinhamento entre o pé e o pedal, algo que um ajuste simples de taco ou calço costuma resolver sem qualquer intervenção médica mais complexa.

As mãos dormentes: sinal de peso mal distribuído

Formigamento ou dormência nas mãos depois de pedais mais longos tem explicação mecânica direta: compressão do nervo ulnar, que passa pela região da palma apoiada no guidão, agravada quando o ciclista transfere peso corporal excessivo para os braços em vez de sustentá-lo com o core e o quadril.

Tal como Rolando Bonaccorsi destaca, essa distribuição de peso costuma piorar justamente em posições mais aerodinâmicas, que inclinam o tronco para frente e empurram mais carga para as mãos. Trocar a posição das mãos periodicamente durante o pedal, usar luvas com acolchoamento adequado e revisar a altura do guidão costumam reduzir esse sintoma de forma significativa, sem exigir qualquer mudança mais drástica de equipamento.

O pescoço: dor que nasce longe de onde dói

Diferente do joelho e das mãos, a dor cervical raramente tem origem exatamente onde o desconforto aparece. Ela nasce, com frequência, da tentativa constante de manter a cabeça erguida e o olhar à frente, enquanto o tronco permanece inclinado para baixo, uma extensão forçada do pescoço sustentada por minutos ou horas seguidas.

Encurtamento dos músculos posteriores da coxa também contribui para esse quadro, já que pernas menos flexíveis forçam o tronco a se curvar mais, exigindo compensação ainda maior do pescoço para manter a visão do percurso. Por isso, Rolando Bonaccorsi sugere que alongar essa musculatura regularmente, além de ajustar a altura do guidão, costuma aliviar boa parte da tensão acumulada nessa região específica.

Por que esperar a dor virar crônica sai mais caro?

Nenhuma dessas três lesões aparece do nada. Todas se desenvolvem gradualmente, alimentadas por um mesmo padrão repetido centenas de vezes a cada treino, o que significa que pequenos ajustes, feitos cedo, evitam meses de desconforto que poderiam ter sido resolvidos com uma correção simples de posição ou equipamento.

Rolando Bonaccorsi reitera que ignorar o primeiro sinal, na esperança de que o corpo se adapte sozinho, costuma transformar um incômodo passageiro em uma lesão que exige fisioterapia e semanas longe da bicicleta. Prestar atenção a onde exatamente a dor aparece e investigar a causa mecânica correspondente continua sendo o caminho mais rápido e mais barato de resolver o problema antes que ele se torne crônico.

 

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