Tarifaço dos EUA: Brasil vive dia decisivo nas negociações comerciais

Diego Velázquez
Diego Velázquez

Prazo do governo americano termina nesta quarta-feira e pode elevar taxação de produtos brasileiros a até 37,5%; entenda o impasse.

Nesta quarta-feira, o Brasil chega ao que vem sendo chamado de “Dia D” do tarifaço americano. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, decide se vai adotar uma tarifa de 25% sobre uma série de produtos brasileiros importados pelos EUA, um ano após o início das investigações comerciais contra o país. A dúvida que move empresários, exportadores e o próprio governo brasileiro é simples de formular, mas difícil de responder: a tarifa vai realmente entrar em vigor, e se sim, quando e sobre quais produtos? A resposta pode mexer diretamente no bolso de quem exporta para os Estados Unidos e, por tabela, na economia brasileira como um todo. Metrópoles

Como começou a disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos

O imbróglio tem origem em uma investigação aberta há exatamente um ano. No dia 15 de julho de 2025, o USTR iniciou uma investigação comercial contra o Brasil com base na Seção 301 da legislação americana, sob a suspeita de práticas desleais cometidas pelo país, citando o comércio popular da rua 25 de Março, em São Paulo, e o funcionamento do sistema de pagamentos Pix. A apuração foi concluída em junho deste ano e propôs a aplicação de 25% de tarifa sobre uma série de produtos brasileiros. Poucos dias depois, os Estados Unidos ainda anunciaram novas taxas para cerca de 60 países, incluindo o Brasil, com base em outra frente de investigação.

Essa segunda camada de cobrança torna o cenário ainda mais delicado para os exportadores brasileiros. Além da tarifa de 25% resultante da investigação da Seção 301, foi anunciada uma cobrança adicional de 12,5% para 60 países, entre eles o Brasil, sob a alegação de falhas no combate ao trabalho forçado. Segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria, entre os 13 produtos mais suscetíveis à sobretaxa, o Brasil é o principal fornecedor do mercado americano em 11 deles, e a nova tarifa pode elevar a taxação de cerca de 4 mil produtos brasileiros para 37,5%, somando-se aos 2,5% já cobrados sob a alegação de omissão brasileira no combate ao trabalho escravo e à tarifa recíproca de 10% adotada em 2025. Tribuna do NorteDiario de Pernambuco

Os pontos que travam um acordo entre os dois países

Mesmo com negociações intensas nos últimos dias, alguns temas seguem sem solução à vista. Contribuem para dificultar o entendimento tanto a recusa do Brasil em negociar mudanças no Pix quanto a resistência dos Estados Unidos em aceitar reduzir a sobretaxa que impõem ao açúcar brasileiro em troca de mudanças na tarifa do etanol que entra no país. O governo brasileiro tem sido categórico ao afirmar que o sistema de pagamentos instantâneos não entra na mesa de negociação, por se tratar de uma política regulatória interna, e não de um instrumento de barganha comercial. Portal Tio Sam

Especialistas ouvidos por veículos de imprensa apontam que o componente político pesa tanto quanto o econômico nessa disputa. Para especialistas consultados pela Agência Brasil, o tarifaço tem motivação política, e não estritamente econômica, já que o comércio bilateral é superavitário para os próprios Estados Unidos. Projeções da Confederação Nacional da Indústria apontam que, se as tarifas entrarem em vigor, mais de 4 mil produtos exportados pelo Brasil serão afetados, o equivalente a quase US$ 15 bilhões em exportações. Setores como carnes, açúcar, alumínio e aço estão entre os mais expostos ao impacto imediato da medida, segundo consultores ouvidos pelo Congresso Nacional. Câmara dos Deputados

O que pode acontecer a partir de hoje

Diante da proximidade do prazo, o governo brasileiro já trabalha com cenários para depois do anúncio americano. A hipótese mais provável prevê a adoção da tarifa de 25%, mas ainda existem lacunas sobre o prazo para a alíquota entrar em vigor, o que pode acontecer em dias, semanas ou até meses, além da possibilidade de mudanças na lista de produtos isentos, com inclusão ou retirada de itens, como ocorreu no caso do lobby de pecuaristas americanos para tirar a isenção do bife bovino brasileiro.

Caso a tarifa seja de fato confirmada, o Brasil já sinalizou como pretende reagir. Entre as alternativas avaliadas pelo governo está a continuidade das negociações ou o acionamento da Lei de Reciprocidade Econômica, que autoriza o país a adotar medidas contra nações que imponham barreiras comerciais aos produtos brasileiros, sendo considerada pouco provável a possibilidade de adiamento do prazo. O documento apresentado pelo Brasil aos americanos aborda medidas relacionadas aos seis principais pontos da investigação, incluindo combate à corrupção, políticas ambientais e controle do desmatamento, mas deixa de fora, propositalmente, qualquer alteração no Pix. Meio Norte

O desfecho dessa novela comercial deve ficar mais claro ainda nesta quarta-feira, quando o USTR divulga sua decisão final. Para quem exporta ao mercado americano, o que está em jogo vai além de um número percentual: envolve contratos, preços e planejamento de safras e produções inteiras. Enquanto o anúncio não sai, entidades como CNI, Amcham Brasil e câmaras de comércio dos dois países seguem pressionando por uma solução negociada, na esperança de evitar um novo capítulo de tensão nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

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