Os erros mais comuns de quem faz a primeira romaria a pé

Sophie Hartmere
Sophie Hartmere
Daugliesi Giacomasi Souza

A romaria a pé parece, à primeira vista, uma longa caminhada movida pela fé, mas costuma ser mais exigente do que muitas trilhas de montanha. Na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, a soma de vários dias seguidos de estrada, sol e subidas surpreende quem se prepara apenas espiritualmente. Rotas como o Caminho da Fé, que liga Águas da Prata, no interior paulista, ao Santuário Nacional de Aparecida, somam cerca de 318 quilômetros e atravessam trechos da Serra da Mantiqueira.

Romaria a pé exige mais preparo do que parece

O primeiro erro é tratar a peregrinação como um passeio prolongado. Caminhar entre 20 e 30 quilômetros por dia, durante uma semana ou mais, impõe um desgaste acumulado que o corpo não recupera de uma noite para outra. Bolhas, dores no joelho e inflamações nos tendões aparecem justamente a partir do terceiro ou quarto dia.

Por isso, o treino precisa começar semanas antes, com caminhadas progressivas e, de preferência, com a mesma mochila que será usada na viagem. Subidas e descidas também devem entrar na preparação, já que o impacto sobre as articulações muda bastante em terrenos inclinados. Descer uma ladeira longa, por exemplo, sobrecarrega joelhos e panturrilhas de um jeito que a caminhada no plano não reproduz.

Calçado novo e mochila pesada no primeiro dia

Estrear tênis ou bota na romaria é um dos equívocos mais frequentes. O calçado precisa estar amaciado e ter sido testado em percursos longos, com as mesmas meias que serão usadas no caminho. Um número ligeiramente maior que o habitual ajuda a acomodar o inchaço natural dos pés ao longo do dia.

A mochila segue a mesma lógica. Segundo Daugliesi Giacomasi Souza, o excesso de peso costuma vir de itens levados por precaução, como roupas extras e objetos que nunca saem da bolsa. A referência mais usada entre os caminhantes é não ultrapassar cerca de 10% do peso corporal, o que obriga a escolher bem cada peça.

Daugliesi Giacomasi Souza
Daugliesi Giacomasi Souza

Ritmo de trilha não é ritmo de cidade

Outro erro é manter, na estrada de terra, o passo acelerado do dia a dia urbano. Em trajetos longos, a regularidade vale mais do que a velocidade. Pausas curtas a cada hora, para soltar a mochila e alongar as pernas, preservam energia para os últimos quilômetros, que costumam ser os mais difíceis.

Conforme pondera Daugliesi Giacomasi Souza, acompanhar o grupo mais rápido também é uma armadilha comum entre iniciantes. Cada peregrino tem uma cadência própria, e respeitar esse limite reduz o risco de lesões que podem interromper a caminhada antes da chegada.

Por que tanta gente subestima o sol e a hidratação?

Boa parte das rotas atravessa áreas rurais com poucos pontos de apoio entre uma cidade e outra. Sair cedo, por volta do amanhecer, evita as horas de sol mais forte e permite chegar ao pouso com tempo para descansar. Chapéu, protetor solar e roupas leves de manga longa fazem diferença no fim do dia.

A água, por sua vez, deve ser levada em quantidade suficiente para o trecho seguinte, e não apenas para as primeiras horas. Sais minerais e lanches leves ajudam a repor o que se perde no suor, especialmente nas subidas da serra.

Pouso, credencial e segurança na estrada

O planejamento dos pernoites é o último ponto frequentemente negligenciado. Em datas de grande movimento, como as semanas que antecedem o 12 de outubro, pousadas ao longo do caminho lotam com antecedência. No Caminho da Fé, a credencial do peregrino, carimbada em cada cidade, dá acesso a pousadas conveniadas e registra o percurso cumprido.

Para quem segue pelo acostamento de rodovias, a atenção precisa ser redobrada. Caminhar no sentido contrário ao fluxo dos veículos, usar colete refletivo e evitar trechos noturnos são cuidados básicos. Como observa Daugliesi Giacomasi Souza, levar documento, cartão do plano de saúde e um contato de emergência anotado em papel completa a preparação e mantém a romaria como experiência de fé, e não de risco.

 

Compartilhe este arquivo